Por Armando A. Pereira | Fundador, PVentures Consulting | Membro Sénior do IEEE | Co-fundador, OpenFog Consortium (IEEE 1934) | ex-Presidente, Autonomous Vehicle Computing Consortium | ex-VP/GM Optical BU, Centillium Communications (CMOS PON SoC, certificação NTT)
👋 Bem-vindo de volta ao O Horizonte™
O Horizonte™ é a newsletter quinzenal gratuita da publicação A Caravela™, dedicada à transição digital e centrada numa única pergunta de cada vez: o que muda se uma tecnologia ou ideia que parece distante chegar mais cedo do que se esperava? Cada edição parte de um “e se” e termina onde começa o trabalho de implementação.
📌 NESTA EDIÇÃO
O tema é o registo que a frota de pesca passou a ser obrigada a produzir e o ângulo é a distância entre cumprir e capitalizar: o calendário europeu que transforma cada barco num emissor de dados, o que muda quando esse registo começa a informar preço e destino, e três frotas que já escolheram de que lado dessa linha querem estar.
⚡ Se só leres 45 segundos
E se o registo que o barco é obrigado a produzir valesse mais do que o peixe que trouxe? Desde 10 de janeiro de 2026, acabou a tolerância de 50 quilos e todas as capturas passam a ser registadas por operação de pesca, com entrada no diário eletrónico pelo menos a cada 24 horas.
Em 2025, a frota açoriana descarregou 12,9 mil toneladas, mais 35,2% do que em 2024, e encaixou 46,9 milhões de euros, mais 18,0%. O preço médio caiu 12,7%. Trabalhou-se mais por menos dinheiro por quilo, e quase ninguém sabe dizer quais viagens pagaram a fatura.
Na África do Sul, 38 coletivos de pesca artesanal, com mais de dez mil pescadores, venderam 515 toneladas de peixe integralmente rastreado e viram o valor do produto subir em 35%. O que mudou não foi a arte de pesca. Foi o registo.
🌊 A ronda matinal
São quatro e meia da manhã e o motor já está quente. O mestre sai com a maré, arma as linhas onde as armou na semana passada, e volta a meio da manhã com caixas que seguem direitas para a lota. O leilão faz o preço. À hora de almoço está tudo fechado.
Ninguém volta a olhar para aquilo.
E, no entanto, aquela viagem produziu um conjunto de dados que qualquer empresa industrial pagaria para ter: posição, profundidade, hora, arte, espécie, peso, temperatura da água e tempo de faina. Juntos, dizem qual das viagens da semana pagou o gasóleo e qual delas saiu do porto para perder dinheiro. A fileira inteira funciona há décadas sem essa conta, por um motivo simples: recolher os dados custava mais do que a resposta valia.
Esse motivo acabou. O Regulamento (UE) 2023/2842 foi adotado a 20 de dezembro de 2023 e a maior parte das suas regras aplica-se desde 10 de janeiro de 2026. Acabou a tolerância de 50 quilos, e todas as capturas passam a ser registadas por operação de pesca, com entrada no diário eletrónico pelo menos a cada 24 horas, antes da meia-noite e antes de entrar no porto. Cada viagem recebe um número único, gerado automaticamente, que acompanha a declaração de desembarque e os documentos de transporte. A Comissão Europeia indica que, até janeiro de 2028, todas as embarcações com menos de 12 metros estarão equipadas e seguidas, e que, a partir daí, poderão comunicar as capturas por meio de uma aplicação móvel.
Segundo o relatório anual da frota de pesca portuguesa da DGRM, a 31 de dezembro de 2024 estavam registadas 685 embarcações nos Açores, com 9.172 toneladas de arqueação e 50.880 quilowatts. O mesmo relatório diz que cerca de 90% das unidades registadas no país têm menos de 12 metros de comprimento, e que essas representam cerca de 13,5% da arqueação nacional. A onda de dados vai cair sobre a parte da frota com margens mais pequenas.

🐟 A pergunta
“E se o registo que o barco é obrigado a produzir valesse mais do que
o peixe que trouxe?”
Não é uma pergunta retórica. O calendário existe, as datas estão escritas e o equipamento será instalado. A pergunta a sério é outra: quem fica com o ativo que a obrigação produz? Um armador que instala, transmite e nunca lê nada paga o custo inteiro e não recebe nada em troca.
Um armador que leia tem, ao fim de uma temporada, a coisa que esta fileira nunca teve: a conta de resultados de cada viagem, com nome, data e coordenada.
📡 A diferença concreta
Comecemos pelos números de casa. Segundo o SREA, em 2025 foram descarregadas 12,9 mil toneladas de pescado nos Açores, no valor acumulado de 46,9 milhões de euros. O volume subiu 35,2% face a 2024 e o valor subiu 18%. O preço médio caiu 12,7%.
Feitas as contas, o ano fechou a 3,64 euros por quilo. E o boletim do SREA diz de onde vem o desencontro. Os atuns, somadas todas as espécies, totalizaram 9,4 mil toneladas, 61,2% a mais do que no ano anterior, quase três quartos de tudo o que entrou em lota. Os pelágicos subiram 49,2%, para cerca de 1,1 mil toneladas; os demersais caíram 2%, para cerca de 2,1 mil toneladas; os moluscos ficaram em 253,7 toneladas e os crustáceos em 9 toneladas. Somadas, as categorias totalizam 12,9 mil toneladas publicadas. Foi um ano puxado por peixes de baixo preço unitário, e o Pico, que subiu 186,8% em volume, é a ilha onde isso se vê mais.
É o retrato de uma frota que trabalhou mais e recebeu menos por unidade.
Mais tempo no mar e menos rendimento.
E é exatamente o tipo de problema que se resolve com informação, não com mais horas de esforço.
Quando o registo passa a ser eletrónico, granular e amarrado a um identificador de viagem, muda a natureza de coisas que hoje parecem meramente administrativas. O gasóleo, as horas de tripulação, as caixas por hora e o preço obtido deixam de viver em cadernos separados e passam a caber numa linha só: a conta daquela viagem. Com duas temporadas de histórico atrás, um armador sabe que espécie, em que semana e em que lota poderá maximizar os seus lucros, e deixa de repetir a saída que no ano anterior lhe custou dinheiro.
E há a proveniência. O identificador único acompanha a captura até ao documento de transporte. A origem deixa de ser uma afirmação comercial de quem vende e passa a ser um registo verificável por quem compra.
A minha tese hoje é simples. O custo de cumprir o regulamento vai ser pago de qualquer maneira, com ou sem estratégia. O que ainda está em aberto é se alguém nos Açores fica com o ativo que esse custo gera.

⛵ Casos e lições de quem está a liderar
A Nova Zelândia optou por instrumentar a frota costeira em vez de inspecioná-la com mais frequência. O programa do Fisheries New Zealand prevê a instalação de câmaras a bordo de cerca de 300 embarcações, o que abrange cerca de 85% das capturas costeiras em volume. A partir de 18 de dezembro de 2025, as câmaras tinham de estar ativas e a gravar durante a faina abrangida.
É um arquipélago muito longe dos seus mercados que decidiu documentar-se ao pormenor para poder vender ao pormenor.
A África do Sul mostrou que a mesma ideia funciona em barcos pequenos. A ABALOBI construiu uma aplicação em que o pescador regista a captura no momento em que ela acontece e outra que leva esse registo ao comprador. Em junho de 2026, a SeafoodSource contabilizava 38 coletivos, mais de 10 mil pescadores, 515 toneladas de produto integralmente rastreado e cerca de 2 milhões de euros em receita gerada para quem pesca. O PNUD, num balanço anterior do mesmo programa, registou uma subida de 35% no valor do produto.
E os Açores já fizeram isto uma vez, o que é a parte esquecida desta conversa. O POPA, Programa de Observação para as Pescas dos Açores, arrancou em 1998 com um consórcio que junta a Secretaria Regional do Mar e das Pescas, o Earth Island Institute, a indústria conserveira, os armadores dos atuneiros, o serviço de lotas e o IMAR da Universidade dos Açores. Observadores embarcam nas viagens de atum com salto e vara e registam capturas, espécies associadas, variáveis ambientais e lixo marinho. E é esse registo que sustenta a certificação Dolphin Safe do Earth Island Institute e a Friend of the Sea.
Vinte e oito anos. Não é um piloto. É um sucesso e uma referência.
Passei anos a gerir soluções de Internet de banda larga residencial através da qualificação dos laboratórios da NTT, no Japão. O que abria a porta ao mercado nunca foi o chip. Era a pasta de análise e dados que ia com ele, elaborada por quem o comprador respeitava, e que nenhum concorrente conseguia apresentar no mesmo prazo. A qualificação era o fosso. Aqui é a mesma mecânica, com peixe em vez de semicondutores.
Três lições saltam à vista para os Açores.
O equipamento vai ser instalado por imposição, pelo que a única decisão que ainda pertence à fileira é quem especifica o que ele mede e quem guarda o que ele escreve.
O valor não está no barco isolado; está no conjunto, porque uma temporada de uma embarcação é anedótica e uma temporada de trezentas é um mercado descrito com precisão.
Quem chegar primeiro ao comprador, com proveniência verificável, fixa o preço de referência, e quem chegar depois passa a comparar-se com ele. A janela é estreita porque o calendário europeu aponta janeiro de 2028 para a frota abaixo de 12 metros, o que deixa duas temporadas para decidir.

🤔 Sabia que…?
Três quartos dos navios industriais do mundo não constam de nenhum registo público.
Um estudo publicado na Nature em janeiro de 2024 cruzou imagens de radar do satélite Sentinel-1 com inteligência artificial e concluiu que cerca de 75% das embarcações de pesca industrial não são rastreadas publicamente. A Agência Espacial Europeia divulgou o mesmo resultado com base nos dados do Copernicus. O mar continua a ser o maior espaço económico por documentar do planeta, e é isso que torna um registo verificável um bem escasso em vez de uma chatice administrativa.A frota de observação de baleias dos Açores construiu uma base de dados científica sem que isso fosse o seu negócio.
A plataforma MONICET nasceu em 2009 e recolhe avistamentos de empresas de observação de cetáceos. Um artigo de 2023 descreve onze empresas no Faial, no Pico, em São Miguel e na Terceira, mais de 37 mil avistamentos de 25 espécies e cerca de 8.455 viagens entre 2009 e 2020. Barcos comerciais a produzir ciência como subproduto da bilheteira, aqui há 17 anos.O certificado de captura de peixes importados na União Europeia deixou de existir em papel.
Desde 10 de janeiro de 2026, os certificados circulam no sistema CATCH, com declarações de transformação obrigatórias para todos os produtos importados. Quem vende para o mercado europeu passa a competir num ambiente em que a rastreabilidade documental é o mínimo de entrada.
🪸 Por que o modelo cooperativo açoriano se enquadra
A frota açoriana tem uma característica que parece uma desvantagem, mas é, na verdade, uma vantagem: é feita sobretudo de barcos pequenos, com donos que se conhecem pelo nome, a operar a partir de portos que partilham a mesma lota. Nenhuma dessas embarcações, sozinha, pode amortizar uma plataforma de dados. Todas juntas amortizam-na várias vezes.
E a figura jurídica já cá está. Cooperativas, associações de armadores e organizações de produtores têm órgãos sociais, contabilidade e histórico de decisões tomadas em comum. Noutras regiões, a primeira tarefa de um projeto destes é convencer concorrentes a criar de raiz uma entidade partilhada, e essa conversa leva dois anos antes de alguém ligar um sensor.
Há também um instrumento europeu com ‘pesca’ no nome. O programa Mar 2030, a versão portuguesa do FEAMPA, foi aprovado pela Comissão Europeia, com mais de 539 milhões de euros destinados à fileira do pescado e à economia azul. Quem se candidata a quê, com quais prazos e quais contrapartidas, é matéria de outra publicação.
Depois há a confiança, que é sempre a parte difícil. Uma base de dados de frota só funciona se cada armador aceitar que o seu registo entre num conjunto que outros vão ler. Nós já tivemos essa discussão e foi resolvida no dia em que decidimos que o frio e o leilão tinham de partilhar a informação. A memória dessa decisão é o ativo mais subestimado da região.

🚢 Onde esta newsletter termina
Fica por dizer tudo o que uma direção precisa saber antes de escolher. Quais são as categorias de equipamento a bordo e o que cada uma exige em termos de energia, ligação e tempo de tripulação? Qual é a escala mínima defensável para uma frota do tamanho da Açoriana? Que instrumentos europeus e regionais financiam infraestrutura de dados e quais a excluem por não a considerarem um investimento produtivo. Como se modela o retorno quando a matéria-prima é a mesma e o que muda é a informação que a acompanha? E quanto tempo leva até à primeira venda a um comprador que paga proveniência?
Nada disso cabe aqui. Cabe no Dossiê™.
O horizonte está claro. Falta cruzá-lo.
🧭 Por onde começar
O passo natural seguinte é O Dossiê™, a edição paga d’A Caravela™, que aborda esta pergunta e entrega a sequência: tecnologias por categoria, escala mínima, instrumentos de financiamento, modelo de retorno e prompts de IA prontos para usar. Para quem preferir tratar disto com alguém sentado à mesa da direção, a PVentures Consulting acompanha transições deste tipo do diagnóstico à entrega.
❓ Pergunta para si
Qual foi, no ano passado, a viagem com a melhor margem por quilo da sua frota? Não é a melhor em caixas. A melhor em euros por quilo, depois do gasóleo e das horas de tripulação. Se a resposta demorar mais de um minuto a chegar, ou se chegar em forma de estimativa, o problema deixou de ser de mercado.
E uma segunda pergunta, mais desconfortável. O equipamento de 2028 vai ser instalado de qualquer maneira. Quem, na sua organização, tem hoje o nome escrito ao lado da pergunta “e o que fazemos com aquilo que ele mede?”



