O calor que a ilha deita fora: a outra parte da história da geotermia
Os Açores já geram cerca de 21% da sua eletricidade a partir do subsolo. O recurso mais valioso, o próprio calor, continua a escapar pela chaminé.
Por Armando A. Pereira | Fundador, PVentures Consulting | Membro Sénior do IEEE | Co-fundador, OpenFog Consortium (IEEE 1934) | ex-Presidente, Autonomous Vehicle Computing Consortium | ex-VP/GM Optical BU, Centillium Communications (CMOS PON SoC, certificação NTT)
👋 Bem-vindo de volta ao O Horizonte™
O Horizonte™ é a newsletter quinzenal gratuita da publicação A Caravela™, dedicada à transição digital e centrada numa única pergunta de cada vez: o que muda se uma tecnologia ou ideia que parece distante chegar mais cedo do que se esperava? Cada edição parte de um “e se” e termina onde começa o trabalho de implementação.
NESTA EDIÇÃO: O tema é o aproveitamento direto do calor geotérmico e a tese é simples: a ilha que já gera eletricidade a partir do subsolo deita fora o recurso mais valioso: o próprio calor. O que está em jogo, o que muda nas margens e quem na Europa já o faz há décadas.
⏱️ Se só leres 45 segundos
E se o calor que a ilha já retira do subsolo, e que hoje se dissipa depois de gerar eletricidade, aquecesse estufas, secasse peixe e alimentasse a aquacultura durante todo o ano?
O aproveitamento em cascata transforma um único furo geotérmico em três ou quatro negócios sobrepostos, sem ocupar mais terreno nem queimar mais um litro de gasóleo.
A Islândia aquece estufas com geotermia desde 1924; no Quénia, a Oserian climatiza 50 hectares de estufas com este calor; na Holanda, dezenas de produtores partilham um só furo.
🔥 A ronda matinal
No domingo, nas Furnas, enterra-se uma panela de ferro num buraco quente e, seis horas depois, sai um cozido preparado pelo próprio vulcão. Com o solo a rondar os 90 graus, o calor da terra faz o trabalho de um forno, sem chama e sem fatura. É um dos pratos mais conhecidos dos Açores e, ao mesmo tempo, a prova mais antiga de que o subsolo de São Miguel é uma fonte de calor utilizável. O que quase ninguém repara é que esse mesmo calor, à escala industrial, está hoje a ser desperdiçado.
🌋 A pergunta
E se o calor que a ilha já tira do subsolo, em vez de se perder no ar após produzir eletricidade, aquecesse estufas, secasse peixe e criasse aquacultura durante todo o ano?
A pergunta não é teórica. São Miguel e a Terceira já exploram geotermia para produzir eletricidade. A geotermia é, aliás, o recurso renovável mais importante dos Açores e cobriu cerca de 21% da procura elétrica regional em 2024. Mas a central utiliza apenas uma fração da energia térmica do fluido; o restante, o calor residual, é dissipado e devolvido ao subsolo ou ao ar. É energia já paga, já à superfície, que sai de graça pela chaminé.
♻️ A diferença concreta
A diferença chama-se uso direto em cascata. Em vez de pedir ao calor que produza apenas eletricidade, encadeiam-se utilizações por níveis de temperatura: a água mais quente seca alimentos e aquece estufas; a morna serve à aquacultura e à secagem de peixe; a mais fria climatiza edifícios ou alimenta balneários. Um único furo passa a sustentar três ou quatro atividades sobrepostas.
Os números de quem já o faz são concretos. Na Islândia, uma exploração de aquacultura geotérmica evita cerca de 24 milhões de quilowatts-hora de eletricidade por ano, uma poupança superior a um milhão de euros, apenas por usar calor em vez de bombas elétricas. O mesmo país seca entre duas mil e quatro mil toneladas de peixe por ano com este recurso. Para uma ilha que importa quase tudo o que aquece e seca, a conta muda de sinal.
🌍 Casos e lições de quem está a liderar
A prova não está num laboratório; está em produção há décadas.
Na Islândia, as estufas são aquecidas com calor geotérmico desde 1924, e os parques de recursos junto às centrais encadeiam eletricidade, calor, estufas e aquacultura no mesmo sítio.
No Quénia, a Oserian climatiza 50 hectares de estufas com geotermia, no maior projeto do mundo de aquecimento de estufas por esta via, e injeta o dióxido de carbono do próprio furo nas estufas para acelerar o crescimento das plantas.
Na Holanda, na região hortícola de Westland, a lógica é outra: dezenas de produtores, em alguns casos meia centena, partilham um só furo geotérmico e repartem entre si o custo da perfuração.
Três lições saltam à vista para os Açores.
Primeira: o valor não está só na eletricidade, está no calor que hoje se desperdiça depois de a gerar.
Segunda: a cascata multiplica negócios a partir do mesmo recurso, da estufa à secagem de peixe, sem ocupar mais terreno.
Terceira: a perfuração é cara demais para um produtor isolado, mas torna-se acessível quando vários a partilham, exatamente o modelo holandês.
Com a central da Ribeira Grande em obras de revitalização e a expansão do Pico Vermelho em marcha, a janela para pensar o calor, e não só a eletricidade, é agora.
🤔 Sabia que…?
A geotermia é o recurso renovável mais importante dos Açores.
Cobriu cerca de 21% da procura elétrica da região em 2024, ainda que a exploração esteja limitada a duas ilhas, São Miguel e Terceira. Todo esse aproveitamento é hoje voltado à produção de eletricidade; o calor direto ainda permanece por explorar.A central da Ribeira Grande está a ser modernizada com um investimento de 24,5 milhões de euros.
A EDA Renováveis contratou a italiana Exergy para instalar uma nova unidade binária de 5 MWe em São Miguel, e a expansão do Pico Vermelho segue em paralelo. A região está a investir no subsolo precisamente agora.Na Holanda, um único furo geotérmico chega a servir centenas de hectares de estufas.
O modelo de Westland não é o de um produtor isolado: aglomerados de dezenas de empresas hortícolas partilham a mesma fonte e dividem o investimento, um arranjo que se assemelha muito ao de uma cooperativa.
⚡ Por que o modelo cooperativo açoriano se enquadra bem
O obstáculo da geotermia direta nunca foi o recurso, foi a escala. Perfurar é caro, e um único agricultor ou uma única empresa de pescado raramente justifica o furo sozinho. É aqui que a estrutura açoriana joga a favor. As ilhas estão organizadas em cooperativas de laticínios, de lota e de produção que já partilham frio, recolha e logística. O calor partilhado é a extensão natural desse hábito: um furo, vários utilizadores, custo repartido, exatamente o que a região de Westland fez com a horticultura. O enquadramento europeu para a autonomia energética das ilhas e para a descarbonização do setor primário existe; o modelo associativo para o usar também. Falta juntar os dois sobre o recurso que São Miguel já tem debaixo dos pés.
🔋 Onde esta newsletter termina
O que fica por contar pertence ao Dossiê™: que temperaturas servem, que utilizações, como se desenha uma cascata de calor por níveis, que instrumentos de financiamento regionais e europeus pagam a perfuração e a infraestrutura partilhada, e como se modela o retorno de uma estufa ou de uma unidade de secagem ao longo de dez anos. Aí estão a sequência, os números e os passos.
O horizonte está claro. Falta cruzá-lo.
🧭 Por onde começar
O próximo passo é a edição correspondente do Dossiê™, paga, com a tecnologia por categoria, a sequência de implementação, a inteligência sobre financiamento e o modelo de retorno. Quem quiser avançar diretamente em um projeto concreto pode falar com a PVentures Consulting.
📚 No mesmo horizonte
A tese desta edição, capturar valor no recurso que a ilha já tem em vez de o deixar escapar, vem de longe nesta newsletter.
O Horizonte™ (6 de maio de 2026): “Cada ilha um cérebro de energia” (acaravela.substack.com), sobre microrredes inteligentes ilha a ilha.
O Horizonte™ (20 de maio de 2026): “A lota com cérebro”
(acaravela.substack.com), sobre previsão de pescas por porto.O Dossiê™ (13 de maio de 2026): “O cérebro de energia para Corvo” (acaravela.substack.com), o caso de autonomia energética numa ilha pequena.
Lidas em conjunto, as três mostram o mesmo padrão: o valor que se ganha quando o recurso é tratado e usado localmente, em vez de exportado ou desperdiçado.
❓ Pergunta para si
Olhe para a sua exploração ou para a sua empresa e faça a conta do calor. Quanto gasta por ano em gasóleo, gás ou eletricidade só para aquecer, secar ou arrefecer?
E se esse calor pudesse vir do subsolo de uma ilha que já o gera para outra coisa, qual seria a primeira utilização que poria em cima da mesa numa reunião da sua cooperativa?





