A água que a ilha perde no escuro
E se cada ilha aprendesse a ouvir a sua própria rede e a reparar fugas de água antes de as ver?
Por Armando A. Pereira | Fundador, PVentures Consulting | Membro Sénior do IEEE | Co-fundador, OpenFog Consortium (IEEE 1934) | ex-Presidente, Autonomous Vehicle Computing Consortium | ex-VP/GM Optical BU, Centillium Communications (CMOS PON SoC, certificação NTT)
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O Horizonte™ é a newsletter quinzenal gratuita da publicação A Caravela™, dedicada à transição digital e centrada numa única pergunta de cada vez: o que muda se uma tecnologia ou ideia que parece distante chegar mais cedo do que se esperava? Cada edição parte de um “e se” e termina onde começa o trabalho de implementação.
NESTA EDIÇÃO: O tema é a gestão inteligente da água e o desperdício que se esconde debaixo do asfalto: por que é que uma rede instrumentada deixa de perder no escuro, o que já conseguiram quem mediu a sério, e onde está a janela de financiamento europeu.
⚡ Se só leres 45 segundos
E se cada ilha soubesse, a cada hora, quanta água entra na rede e quanta se perde pelo caminho?
Sensores e contadores que comunicam, e uma camada de inteligência artificial, detetam a fuga antes do cano rebentar, poupando recursos e energia de bombagem.
Quem mede a sério já vai à frente: uma concessionária sueca desceu as perdas abaixo de 8%; o Porto está nos 11,8%; a média nacional ronda os 26,5%.
💧 A ronda matinal
Abrir a torneira é o gesto mais banal do dia. A água chega, e raramente perguntamos por onde andou. Numa ilha, porém, cada metro cúbico que sai de uma nascente ou de um furo carrega muito mais do que água. Carrega a energia que a bombeou até à encosta acima, o tratamento que a tornou potável, o trabalho de a transportar e de a armazenar até à torneira.
Quando essa água se perde por uma fuga subterrânea, não se perde apenas o recurso. Perde-se tudo o que já foi gasto para levá-la até ali. E perde-se no escuro, sem ruído, durante meses, até que alguém repare. Uma conduta enterrada não se queixa. O contador da casa só mede o que chega, nunca o que escapa pelo caminho.

💧 A pergunta
“E se cada ilha aprendesse a ouvir a sua própria rede de água e reparasse a fuga antes de a ver? Antes de receber um telefonema a comunicar que uma rua está inundada?”
A pergunta não é retórica. A tecnologia para responder já não é experimental. Chama-se, de forma genérica, gestão inteligente da água e assenta numa arquitetura com três camadas simples:
Sensores de pressão e de caudal nos pontos certos da rede;
Contadores digitais que comunicam, em vez de serem lidos uma vez por mês;
Uma aplicação de software de IA que aprende o comportamento normal do sistema e assinala o que foge ao padrão. Quando o consumo noturno de um bairro sobe sem razão aparente, o sistema percebe antes que o cano rebente.

🌊 A diferença concreta
O problema que isto resolve é grande e está medido. Em Portugal continental, segundo o relatório anual da Entidade Reguladora dos Serviços de Águas e Resíduos, a água não faturada representou cerca de 26,5% do total em 2024. Em perdas reais nas redes de distribuição, falamos de cerca de 187 milhões de metros cúbicos de água captada, tratada e distribuída que se evaporaram das contas num único ano, o equivalente a quase 9 piscinas olímpicas por hora.
Os Açores têm uma particularidade que agrava o desafio. Os sistemas de água são pequenos e dispersos: a entidade reguladora regional, a ERSARA, tem inventariadas cerca de 186 zonas de abastecimento em todo o arquipélago, a maioria concentrada em São Miguel. Gerir dezenas de pequenos sistemas, espalhados por nove ilhas e por terrenos vulcânicos, é bem mais difícil do que gerir uma grande rede contínua. Quanto mais fragmentado o sistema, mais lugares há onde uma fuga pode se esconder.
E há um custo que as ilhas sentem mais do que o continente. Levar água a uma cota mais alta custa energia que, muitas vezes, ainda vem de combustíveis importados. Cada fuga é, por isso, também uma fatura de carbono. No verão, com o pico de procura e de turismo, a margem fica mais estreita, e uma fuga que passou despercebida no inverno torna-se, em agosto, a diferença entre ter pressão na torneira e ficar sem ela.
📊 Casos e lições de quem está a liderar
Os resultados estão bem documentados e não em pequenas demonstrações de laboratório.
Na Suécia, a concessionária VA SYD, que opera cerca de 5.000 quilómetros de condutas a partir de Malmö, baixou o volume de água não faturada de 10% para menos de 8% com deteção de fugas assistida por inteligência artificial, capaz de identificar perdas tão pequenas como meio litro por segundo.
Em Portugal, as Águas e Energia do Porto reduziram as perdas para 11,8% em 2025, menos de metade da média nacional, com mais de 280 sensores, centenas de pontos de controlo e uma camada de software de IA para análise com aprendizagem automática.
Do outro lado do Atlântico, um sistema pequeno como o da Rogers, no Arkansas, reduziu as suas perdas de 18% para 5% com 1.800 sensores acústicos a escutar a rede todos os dias.
Três lições saltam à vista para os Açores.
Primeira: a escala não é desculpa; o caso da Rogers prova que um sistema pequeno pode obter os maiores ganhos, e os Açores são feitos de sistemas pequenos.
Segunda: a vitória começa na medição, não na obra; quem mede ao minuto repara cedo, e quem repara cedo gasta menos asfalto, menos água e menos energia.
Terceira: a tecnologia é madura e está instalada em redes tão exigentes como as nossas, o que transforma a decisão num problema de vontade, não de risco técnico.
Tudo isto ganha urgência com a janela de financiamento europeu hoje aberta para a eficiência hídrica.
🤔 Sabia que…?
Há fugas de água que se detetam a partir do espaço.
Uma tecnologia de satélite com radar de banda L, comercializada desde 2016 pela ASTERRA, identifica o rasto de humidade que uma fuga de água tratada deixa no solo e analisa milhares de quilómetros de conduta numa única passagem. Já validou perto de cem mil fugas em todo o mundo e foi descrita como o maior avanço na deteção de fugas subterrâneas em oitenta anos.O desperdício mundial de água é colossal.
Estima-se que se percam cerca de 126 mil milhões de metros cúbicos de água por ano em todo o mundo, devido a fugas, furtos e erros de medição, um valor avaliado em cerca de $39 mil milhões anuais. Não é um problema de países pobres ou ricos; é um problema de redes que não se medem.Uma fuga de água é quase sempre uma fuga de energia.
Segundo a Agência Internacional de Energia, o setor da água já consome cerca de 4% de toda a eletricidade do planeta, uma fatia que deverá mais do que se duplicar nas próximas décadas.
♻️ E o nosso modelo açoriano
Nada disto exige refazer tudo de uma vez, nem é um luxo das grandes metrópoles. Pelo contrário: é nos sistemas pequenos e fragmentados, como o açoriano, que a margem de melhoria é maior. A lógica encaixa bem no mapa da Região, onde a gestão da água é municipal e onde a cooperação intermunicipal pode partilhar a camada de software de análise que, isoladamente, seria pesada para um só concelho.
E a Região não partiria do zero. O que a EDA está a fazer com os contadores de eletricidade mostra que a telecontagem já é uma realidade local. Os instrumentos europeus disponíveis, do Plano de Recuperação e Resiliência ao Portugal 2030, contemplam linhas dedicadas à eficiência hídrica, e estes fundos não ficam abertos para sempre. A água não faturada é exatamente o tipo de problema para o qual estes programas foram criados: um investimento de uma só vez que se paga em poupança recorrente de recursos e energia.
💧 Onde esta newsletter termina
Fica por dizer o mais importante para quem quer agir: que sensores escolher e onde os colocar primeiro; como sequenciar a instrumentação, zona a zona, sem parar o serviço; que contadores comunicam com que plataformas; como construir o caso económico, com números de poupança de água e de energia; e a que linha de financiamento europeu se candidata a quê e com que calendário. Esse é o trabalho de implementação e é precisamente onde esta newsletter termina.
O horizonte está claro. Falta cruzá-lo.
🧭 Por onde começar
O passo natural seguinte é o Dossiê™, a edição paga d’A Caravela™ que aborda este tema e o transforma num guia de implementação: tecnologias por categoria, sequência de adoção, instrumentos de financiamento, modelo de retorno e prompts de IA prontos para usar. Para quem precisa levar a decisão a uma câmara ou a uma reunião intermunicipal, é o atalho entre a intenção e o piloto.
📚 No mesmo horizonte
A tese desta edição (capturar valor no recurso que a ilha já tem em vez de deixá-lo escapar) vem de longe nesta newsletter.
O Horizonte (17 jun 2026): “O calor que a ilha deita fora: geotermia direta para os Açores”. A mesma tese de capturar valor localmente a partir do recurso que a ilha já tem.
O Horizonte (6 mai 2026): “Cada ilha um cérebro de energia”. Inteligência por nó aplicada às redes elétricas das ilhas: o paralelo direto à água.
Lidas em conjunto mostram o mesmo padrão: o valor obtido quando o recurso é tratado e usado localmente, em vez de desperdiçado.
❓ Pergunta para si
Uma pergunta para levar à próxima reunião: sabe, hoje, quanta água entra na rede do seu concelho e quanta chega de facto à fatura?
Se a resposta é uma estimativa e não um número medido, já encontrou o primeiro lugar onde a sua ilha está a perder no escuro.




Muitos parabéns pelo artigo , gostava de acrescentar que nos Açores perde se milhões de litros água por hora , água esta que vai directamente para o mar.
Em todas as ilhas devia se aproveitar as fortes quedas pluviométricas do inverno com a construção de lagoas artificiais.