A alga que cresce à porta de casa.
E se cada ilha cultivasse o mar que já tem, em vez de esperar que a maré traga a alga à rocha?
Por Armando A. Pereira | Fundador, PVentures Consulting | Membro Sénior do IEEE | Co-fundador, OpenFog Consortium (IEEE 1934) | ex-Presidente, Autonomous Vehicle Computing Consortium | ex-VP/GM Optical BU, Centillium Communications (CMOS PON SoC, certificação NTT)
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O Horizonte™ é a newsletter quinzenal gratuita da publicação A Caravela™, dedicada à transição digital e centrada numa única pergunta de cada vez: o que muda se uma tecnologia ou ideia que parece distante chegar mais cedo do que se esperava? Cada edição parte de um “e se” e termina onde começa o trabalho de implementação.
📌 NESTA EDIÇÃO
O tema é a cultura de macroalgas no mar açoriano e a ideia é capturar valor onde ele nasce: uma nova cultura marinha para águas limpas, um mercado europeu que já procura muito mais do que produz, e um modelo cooperativo à medida das ilhas.
⚡ Se só leres 45 segundos
E se cada ilha dos Açores cultivasse a sua própria macroalga em águas limpas, em vez de a apanhar da rocha ou de importar os seus derivados de fora?
A procura europeia de algas pode subir para 8 milhões de toneladas em 2030, o que representa um mercado estimado em 9 mil milhões de euros, enquanto a UE cultiva hoje menos de mil toneladas por ano.
Nas Ilhas Faroé, na Noruega e até no continente, há quem esteja anos à frente, e até a Universidade dos Açores tem estudado as espécies e os locais mais adequados para o cultivo no nosso arquipélago.
🌊 A maré que se apanha à mão
Depois de um temporal, a alga surge nas rochas das nossas ilhas e quase ninguém repara nela. É paisagem, não é recurso. Quando muito, alguém as apanha à mão para uma receita antiga ou para adubar uma horta.
Entretanto, os produtos feitos a partir da alga entram na ilha pelo porto, vindos de fora: os gelificantes que dão textura a um iogurte, os bioestimulantes que se pulverizam numa pastagem, os ingredientes de um creme. Compramos o que o mar aqui nos dá de graça, enquanto o produto transformado, com o valor, fica noutro sítio.
🪸 A pergunta
“E se a alga deixasse de ser aquilo que a maré traz, e passasse a ser aquilo
que a ilha cultiva, colhe e transforma?”
A pergunta não é um exercício de imaginação. A alga é uma das poucas culturas que não precisam de terra arável, de água doce, de rações nem de fertilizantes: cresce com a luz e com os nutrientes que já estão na água. Numa região onde a terra é escassa, mas a água limpa e fria é abundante, isto é, de partida, uma vantagem.

🚢 A diferença concreta
O mercado do outro lado é grande e mal servido. A União Europeia, com 66 mil quilómetros de costa, cultiva hoje menos de mil toneladas de algas por ano, enquanto a procura interna pode chegar a 8 milhões de toneladas em 2030. A Comissão Europeia já comprometeu cerca de 273 milhões de euros para apoiar o sector. Quem entra cedo entra onde a procura corre à frente da oferta.
E a alga cultivada tem saída para vários destinos ao mesmo tempo: alimentação humana e animal, cosmética e bioestimulantes para a agricultura. Há mesmo uma forma de cultivo, a aquacultura multitrófica integrada, em que a alga cresce ao lado do peixe e absorve o excesso de nutrientes da água, transformando o que seria poluição num segundo produto de valor.
⛵ Casos e lições de quem está a liderar
Os leitores mais atentos dirão, e com razão, que Portugal já vive disto há décadas. A firma Agar-Agar em S. Miguel anteriormente, e hoje a Iberagar, no Barreiro (Quinta da Areia – Coina), sempre colheram e processaram a alga marinha, e fizeram-no bem: quando o agar japonês desapareceu do mercado no pós-guerra, o país construiu uma indústria do agar-agar que, em 1971, era a segunda maior do mundo, com seis fábricas a laborar. A Iberagar continua a ser uma das referências mundiais deste colóide. Mas toda essa indústria assentou sempre num ponto frágil: a apanha da alga selvagem, o gelidium, no mar. Quando os bancos naturais começaram a rarear, a indústria recuou; muitas fábricas fecharam no início dos anos 90 e, em 2018, cerca de 80% da matéria-prima mundial de agar já vinha de Marrocos.
E é precisamente aqui que a nossa proposta é mais forte, e diferente. A Agar-Agar anteriormente, e hoje a Iberagar colhem o que o mar dá; nós propomos cultivá-lo. O valor da alga sempre foi real; o que sempre o limitou foi depender da apanha selvagem. Cultivar não é apanhar mais depressa uma alga que rareia: é uma cultura renovável e controlada, sem o teto do banco natural, e com saída em muito mais do que o agar, da alimentação à cosmética. É a diferença entre viver do que a maré traz e plantar o que se quer colher.
E não é só história portuguesa. Isto já é presente lá fora.
Nas Ilhas Faroé, a Ocean Rainforest tornou-se a maior produtora de algas cultivadas da Europa: passou de 240 toneladas em 2023 para cerca de 400 toneladas em 2024.
Na Noruega, a produção cultivada subiu de 50 toneladas em 2015 para cerca de 600 toneladas em 2023.
E não é preciso ir tão longe: em Aveiro, a ALGAplus produz algas em terra desde 2011, num sistema integrado de 14 hectares na Ria de Aveiro. É uma empresa portuguesa, à escala de uma PME, a fazer o que ainda não fazemos aqui.
Três lições saltam à vista para os Açores.
Primeira: começa-se pequeno e por espécie, não em grande escala; as ilhas Faroé e a Noruega chegaram lá a partir de dezenas de toneladas, não de milhares.
Segunda: o valor está no processamento, não apenas na biomassa; a ALGAplus não vende alga a granel, vende produto transformado e certificado.
Terceira: a cultura integrada transforma um custo ambiental (o excesso de nutrientes na água) numa segunda colheita.
Com a procura europeia a crescer mais depressa do que a oferta, e com financiamento comunitário já no terreno, a janela para entrar cedo é agora.
🤔 Sabia que…?
A alga que reduz o metano do gado já cresce nos Açores.
A Asparagopsis, usada como suplemento na alimentação animal, reduziu as emissões de metano entérico do gado bovino em ensaios recentes, entre 40% no pastoreio e mais de 80% em laboratório.
Nos Açores é uma espécie abundante, ainda que invasora. A leitura provável é que aquilo que hoje é um incómodo nas poças de maré possa vir a ter valor para uma região que vive do leite.A alga com que se enrola o sushi cresce nas nossas rochas.
O nori pertence ao género Porphyra, presente naturalmente no litoral açoriano, tal como a Osmundea pinnatifida, apreciada pelo seu sabor intenso. As ilhas já têm no seu litoral espécies de elevado valor; falta cultivá-las e transformá-las, em vez de as deixar na rocha.As algas produzem e limpam ao mesmo tempo.
A Comissão Europeia estima que um sector das algas mais forte possa criar cerca de 85 mil postos de trabalho na Europa e evitar até 5,4 milhões de toneladas de CO2 por ano, ao retirar também azoto e fósforo em excesso das águas costeiras. Poucas culturas dão rendimento e prestam serviços ambientais na mesma operação.
🐟 Por que o modelo cooperativo açoriano se enquadra bem
Nada disto exige que cada produtor faça tudo sozinho, e é aí que o modelo cooperativo açoriano se encaixa. As ilhas já sabem organizar a recolha, a transformação e a venda em comum: é assim que o leite chega da exploração à fábrica e o pescado passa pela lota. A alga pede a mesma lógica: muitos pequenos produtores a partilharem a secagem, o processamento e a certificação, que nenhum deles pagaria isoladamente.
E a Região não partiria do zero. Na Universidade dos Açores, um trabalho coordenado pela investigadora Ana Isabel Neto tem estudado quais espécies locais são adequadas para cultivar e onde. O conhecimento científico existe, as águas existem, a tradição marítima existe. Falta juntá-los.
🦐 Onde esta newsletter termina
Fica por dizer o que mais importa a quem quer agir. Que espécies escolher para cada ilha e porquê? Que sistema de cultivo faz sentido, em terra ou no mar, e a que custo? Que instrumentos de financiamento europeus e regionais se aplicam e como se constrói o caso de retorno que convence uma cooperativa ou uma câmara. Tudo isso é matéria do Dossiê™, a edição paga d’A Caravela™, onde a pergunta “e se” passa a plano.
O horizonte está claro. Falta cruzá-lo.
🧭 Por onde começar
O passo natural seguinte é O Dossiê™, a edição paga d’A Caravela™, que aborda este tema e o transforma numa sequência de implementação: tecnologias, financiamento, retorno e instruções prontas a usar. Para quem prefere avançar acompanhado, a PVentures Consulting trabalha estas transições ao lado das equipas.
❓ Pergunta para si
Uma pergunta para levar à próxima reunião da cooperativa ou da câmara:
Quantas toneladas de derivados de alga, gelificantes, bioestimulantes e ingredientes cosméticos entram na sua ilha por ano, importados e já transformados, quando a matéria-prima cresce à porta? E se metade desse valor ficasse cá?






Um artigo muito interessante em que todas as ilhas dos Açores podem tirar partido económico . Obrigada